HomeNotíciasMundoEuropa em tensão: onda de protestos pressiona governos e agita cenário político

Europa em tensão: onda de protestos pressiona governos e agita cenário político

Da Itália à França, manifestações reúnem trabalhadores, estudantes e movimentos sociais contra o custo de vida, cortes em serviços públicos, gastos militares e decisões dos governos. O avanço das mobilizações também começa a pesar no cenário político e eleitoral europeu

A Europa atravessa uma nova sequência de grandes manifestações. Nos últimos dias, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas da Itália, enquanto protestos também atingem França, Bélgica e Albânia, embora com pautas e contextos políticos diferentes.

Itália: greve geral leva milhares às ruas

Na última sexta-feira, 30 de outubro, uma greve geral de 24 horas convocada pelo sindicato USB mobilizou mais de 40 cidades italianas. Trabalhadores, estudantes e movimentos sociais reivindicaram melhores salários, fortalecimento dos serviços públicos e medidas contra o aumento do custo de vida, além de protestarem contra o crescimento dos gastos militares e o uso de portos italianos para transporte de armamentos.

Houve atos em cidades como Roma, Milão, Turim e Gênova. Em Gênova, cerca de 15 mil manifestantes, incluindo trabalhadores portuários e estudantes, entraram na área do porto. Em Turim e Roma ocorreram confrontos entre grupos de manifestantes e forças de segurança.

O Ministério do Interior da Itália já vinha reforçando a segurança diante da sequência de mobilizações. Em 29 de outubro, o ministro Matteo Piantedosi reuniu prefeitos, chefes de polícia e autoridades de segurança para organizar o esquema nacional de acompanhamento dos protestos. O governo afirma defender o direito de manifestação pacífica, mas promete agir contra episódios de violência.

Meloni enfrenta pressão nas ruas

A primeira-ministra Giorgia Meloni, no cargo desde outubro de 2022, governa em meio a um ambiente social mais tensionado. Segundo a própria Presidência do Conselho de Ministros, Meloni continua à frente do Executivo italiano.

A questão eleitoral também está no horizonte. Pela Constituição italiana, Câmara e Senado possuem mandato de cinco anos. Isso significa que, caso não haja dissolução antecipada do Parlamento, a Itália deverá passar por novas eleições nacionais até 2027.

O Parlamento italiano também aprovou em 2026 alterações nas regras eleitorais para Câmara e Senado, aumentando ainda mais a importância política do período que antecede a próxima disputa nacional.

França: juventude aumenta pressão sobre Macron

Na França, estudantes vêm realizando bloqueios e manifestações por melhores condições nas escolas, contratação de professores, ampliação de vagas universitárias e mudanças no sistema educacional. Nesta segunda-feira, 2 de novembro, novos protestos foram registrados após duas semanas de interrupção.

As reivindicações estudantis se misturam à insatisfação com custo de vida, inflação e situação dos serviços públicos. O movimento ocorre em um momento especialmente sensível: a França caminha para uma eleição presidencial em 2027, aumentando a pressão política sobre o governo do presidente Emmanuel Macron.

Albânia e Bélgica também vivem tensão política

Na Albânia, protestos liderados principalmente por jovens passaram a cobrar a saída do primeiro-ministro Edi Rama, em meio a denúncias de corrupção, desemprego e críticas às políticas do governo. Rama, no poder desde 2013 e reconduzido para um quarto mandato, rejeita renunciar e afirma que a troca de governos deve ocorrer por meio das eleições.

Na Bélgica, a tensão é institucional. O primeiro-ministro Bart De Wever colocou seu cargo à disposição nesta segunda-feira, 2 de novembro, depois do fracasso das negociações sobre o orçamento. Caso a coalizão governista não consiga um acordo, uma das possibilidades é a convocação de novas eleições.

O que une os protestos?

Embora não exista uma única organização comandando esses movimentos, algumas pautas aparecem repetidamente: custo de vida, salários, educação, serviços públicos, emprego, gastos militares, guerras e insatisfação com governos e instituições.

Na Itália, questões internacionais, especialmente relacionadas aos conflitos no Oriente Médio e ao apoio à população palestina, também ganharam espaço nas ruas. O próprio Ministério das Relações Exteriores italiano confirmou recentemente episódios envolvendo cidadãos italianos detidos na Cisjordânia, demonstrando como a guerra também passou a integrar o debate político doméstico.

O ponto político central é que as manifestações acontecem justamente quando vários países europeus entram ou se aproximam de novos ciclos eleitorais. E, quando insatisfação econômica, serviços públicos e política externa chegam simultaneamente às ruas, os protestos deixam de ser apenas uma questão de ordem pública: tornam-se também um termômetro do comportamento eleitoral.

Érica Barbosa
Érica Barbosa
Assistente social, Prof.a mestra em saúde, empresária e pesquisadora
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