O presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia nesta terça-feira (3), a pedido do presidente Santiago Peña, em meio a uma crise financeira envolvendo o banco digital Ueno Bank. A saída ocorreu após a autoridade monetária anunciar um procedimento de resolução da instituição, depois de identificar problemas graves em seus indicadores de solvência.
A renúncia foi formalizada por meio de uma comunicação encaminhada ao presidente do Senado paraguaio, Basilio Núñez. Carvallo estava à frente do Banco Central desde agosto de 2023 e já havia presidido a Financiera Ueno, instituição que posteriormente se transformou no Ueno Bank.
Segundo comunicado oficial do Banco Central, o processo de resolução foi aprovado por unanimidade pelo conselho diretor em 2 de novembro e divulgado no dia seguinte. A decisão ocorreu após a constatação de que o índice de solvência do banco havia caído para menos de 50% do nível mínimo exigido pela regulamentação financeira.
O procedimento prevê a atuação de interventores para avaliar a situação patrimonial da instituição, preservar seus ativos e organizar medidas destinadas à proteção dos depositantes.
Crise atinge milhões de clientes
O Ueno Bank é uma das instituições financeiras digitais mais populares do Paraguai, com aproximadamente 2,9 milhões de clientes. Após o anúncio da intervenção, os serviços bancários foram suspensos, incluindo operações por aplicativos, cartões e atendimento nas agências.
A medida provocou preocupação entre correntistas, que se reuniram em frente às unidades da instituição em busca de informações sobre o acesso ao dinheiro depositado.
Entre os afetados estão aposentados que recebem benefícios por meio do banco. A instituição também mantém investimentos de órgãos públicos paraguaios, incluindo o Instituto de Previdência Social (IPS).
De acordo com informações divulgadas pela agência EFE, o IPS possui aproximadamente US$ 355 milhões investidos no Ueno Bank, que também participa do pagamento de benefícios a cerca de 32 mil aposentados.
O Banco Central informou que os depósitos estão protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), respeitando o limite previsto na legislação paraguaia, equivalente a 228,3 milhões de guaranis por depositante e instituição financeira.
Como medida emergencial, a autoridade monetária anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos clientes, mas os procedimentos e o calendário de liberação dos recursos ainda estavam sendo definidos.
Presidente do Paraguai pede renúncia
Diante da repercussão do caso, o presidente Santiago Peña anunciou publicamente que havia solicitado a saída de Carlos Carvallo.
O chefe do Executivo também informou que articulou com os presidentes das duas casas do Congresso Nacional a tramitação de uma proposta legislativa destinada a acelerar a devolução dos recursos aos depositantes e proteger valores pertencentes a instituições públicas e fundos previdenciários.
Peña afirmou que a situação do Ueno Bank representa um problema específico da instituição e não significa que todo o sistema financeiro paraguaio esteja comprometido.
O episódio, entretanto, ampliou os questionamentos sobre a fiscalização bancária e as relações entre autoridades públicas e os controladores da instituição.
O próprio Carvallo havia ocupado um cargo de direção na antiga Financiera Ueno antes de assumir a presidência do Banco Central. Já Santiago Peña manteve anteriormente vínculos empresariais com o grupo controlador da instituição, dos quais se desligou em 2025.
A crise também passou a ser investigada pelo Ministério Público paraguaio, com medidas judiciais envolvendo dirigentes ligados ao banco. As investigações buscam esclarecer possíveis irregularidades nas operações financeiras e eventuais responsabilidades pela situação da instituição.
Banco Central passa a ter comando interino
Após a renúncia de Carvallo, a economista Liana Caballero foi escolhida para assumir interinamente a presidência do Banco Central do Paraguai.
Integrante do conselho diretor da instituição, Caballero ficará responsável pela condução temporária da autoridade monetária enquanto o governo define um substituto definitivo.
A nova administração terá entre suas prioridades acompanhar o processo de resolução do Ueno Bank, garantir a execução dos mecanismos de proteção aos depositantes e restabelecer a confiança na fiscalização do sistema financeiro.
Enquanto isso, milhares de clientes aguardam novas orientações sobre os procedimentos para recuperar seus recursos, em um episódio que passou a representar também um desafio político para o governo de Santiago Peña.


