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Calor extremo em Manaus: pesquisas revelam por que a capital amazonense está cada vez mais quente

Dados brasileiros e internacionais mostram que o aquecimento global, o El Niño, a perda de vegetação e a expansão urbana intensificam o calor na capital. Em algumas áreas, a temperatura da superfície chega a superar em 10 °C a de regiões florestais próximas

O calor que incomoda os moradores de Manaus não é apenas uma questão de sensação. Pesquisas científicas realizadas no Brasil e no exterior mostram que a capital amazonense reúne condições capazes de intensificar as altas temperaturas: mudanças climáticas globais, alterações na circulação atmosférica, diminuição da cobertura vegetal e crescimento urbano.

O problema também está sendo investigado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que iniciaram o monitoramento das condições térmicas de diferentes regiões da cidade.

Mas o que explica tanto calor em uma capital cercada pela maior floresta tropical do planeta? A resposta está na combinação de fatores naturais com transformações ambientais provocadas pela atividade humana.

Pesquisas revelam diferenças de até 10 °C entre cidade e floresta

Um levantamento publicado pelo InfoAmazonia em junho de 2025, baseado em imagens do satélite Landsat 8, identificou diferenças significativas entre as temperaturas de superfície de Manaus e as áreas preservadas próximas à capital.

A análise utilizou a Reserva Florestal Adolpho Ducke como referência e revelou que mais de 85% dos moradores vivem em bairros cujas temperaturas de superfície, no momento da observação, eram superiores em mais de 3 °C às registradas na floresta.

Em 16% da área urbana analisada, a diferença alcançava pelo menos 5 °C, chegando a 10 °C em determinados pontos.

A mesma pesquisa encontrou uma diferença média de 2,6 °C entre a área urbana de Belém e a floresta de referência, enquanto Manaus apresentou aproximadamente 3 °C.

Comparativo das ilhas de calor — 2025

CapitalDiferença média de temperatura de superfície em relação à floresta
Manaus+3 °C
Belém+2,6 °C

Os valores de 5 °C e 10 °C representam diferenças encontradas em determinadas áreas, e não a média de toda Manaus. Temperatura de superfície não é a mesma medida que temperatura do ar.

O que a ciência explica sobre o calor em Manaus?

O fenômeno conhecido como ilha de calor urbana ocorre quando áreas com grande concentração de concreto, asfalto e edificações acumulam mais energia solar do que regiões arborizadas.

Durante o dia, ruas, telhados e paredes absorvem calor. À noite, liberam lentamente parte dessa energia, dificultando o resfriamento da cidade.

A vegetação funciona de maneira diferente: além de oferecer sombra, as árvores liberam vapor de água por meio da evapotranspiração, contribuindo para resfriar o ambiente.

Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Meteorologia, em 2016, encontrou intensidade média de ilha de calor de aproximadamente 1,8 °C em Manaus, com base em observações meteorológicas e modelagem. Já a pesquisa do InfoAmazonia, de 2025, identificou diferenças maiores de temperatura de superfície.

Os números não são contraditórios: os estudos utilizaram métodos, períodos e variáveis diferentes.

Aquecimento global: outubro de 2026 foi o mais quente já registrado no mundo

O cenário de Manaus acompanha uma tendência internacional preocupante.

Segundo os dados apresentados do serviço europeu de monitoramento climático Copernicus, outubro de 2026 foi o outubro mais quente da série histórica global, com temperatura média de 15,35 °C, aproximadamente 1,75 °C acima do nível pré-industrial.

Os dados atribuídos ao serviço também indicam que o período de 2023 a 2026 deverá registrar uma média global superior a 1,5 °C em relação ao período pré-industrial.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) já havia confirmado que os anos de 2015 a 2025 constituíram os 11 anos mais quentes já registrados até então.

Isso não significa que Manaus aqueceu exatamente 1,75 °C. O índice corresponde à média global e demonstra o contexto climático em que episódios locais de calor acontecem.

El Niño pode intensificar ainda mais o calor nos próximos meses

Outro componente importante é o fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar a circulação atmosférica e o regime de chuvas em diferentes regiões do mundo.

Em 29 de outubro, um prognóstico atribuído ao Inmet, Inpe e Funceme indicou que, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, as temperaturas médias poderão ficar de 1 °C a 2 °C acima do normal em grande parte do Brasil.

A previsão também aponta possibilidade de redução das chuvas no norte e no leste da Amazônia, o que pode favorecer períodos de maior aquecimento.

Na prática, menos chuva e menor cobertura de nuvens podem permitir maior incidência de radiação solar durante o dia. Quando isso ocorre em áreas muito urbanizadas, o calor acumulado no concreto pode tornar o desconforto ainda maior.

Queimadas também preocupam: focos aumentaram 37 vezes na região de Manaus

Um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontou 5.598 focos de calor entre 4 e 14 de outubro de 2026 em 19 municípios da região metropolitana e central do Amazonas. No mesmo intervalo de 2025, haviam sido registrados 149 focos.

O levantamento também mostrou que, de janeiro a 14 de outubro de 2026, os municípios analisados acumularam 15.674 focos de calor, resultado 109,4% superior à média histórica do mesmo período.

É importante diferenciar os indicadores: focos de calor são detecções de anomalias térmicas por satélite, frequentemente associadas a incêndios. Não significam aumento equivalente da temperatura do ar.

As queimadas, entretanto, podem agravar a situação ambiental ao emitir gases de efeito estufa e partículas de fumaça, elevando os riscos respiratórios e contribuindo para a degradação da floresta.

E qual é a situação de Manaus neste início de novembro?

Para esta sexta-feira, 6 de novembro, a previsão meteorológica apresentada do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indica máxima de 34 °C e mínima de 25 °C na capital amazonense, com possibilidade de pancadas de chuva isoladas.

Para os dias 7 e 8 de novembro, o instituto aponta máximas de 35 °C. Os números representam previsões meteorológicas, que podem sofrer alterações.

Apesar do calor, não é possível afirmar, somente com esses valores, que Manaus esteja oficialmente sob uma onda de calor. Para essa classificação, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) utiliza critérios que consideram temperaturas excepcionalmente elevadas em relação à climatologia durante pelo menos três dias consecutivos.

Uma nota técnica divulgada pelo órgão em maio de 2026 identificou aumento da frequência desses eventos no Brasil nas últimas décadas, inclusive na Região Norte.

Calor também é um problema de saúde pública

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição prolongada ao calor extremo aumenta os riscos de desidratação, exaustão térmica e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias.

A umidade elevada, comum em Manaus, também pode dificultar a evaporação do suor, mecanismo natural utilizado pelo organismo para regular a temperatura.

Crianças, idosos, gestantes, trabalhadores expostos ao sol e pessoas com doenças crônicas exigem atenção especial.

Entre as recomendações estão a ingestão frequente de água, a busca por locais ventilados e a redução de atividades físicas intensas nos horários mais quentes.

Pesquisadores internacionais investigam soluções para Manaus

Em setembro de 2026, a Prefeitura de Manaus anunciou que sensores já estavam monitorando diferentes zonas da cidade, em uma pesquisa desenvolvida pelo MIT e pela Ufam.

O estudo busca compreender a distribuição do calor urbano e avaliar estratégias arquitetônicas, como sistemas de dupla cobertura em edificações, para reduzir a exposição da população às altas temperaturas.

Os resultados poderão contribuir para futuras políticas de planejamento urbano, arborização e melhoria do conforto térmico.

Os estudos nacionais e internacionais apontam para uma conclusão: o aquecimento global amplia as condições favoráveis ao calor extremo, enquanto a urbanização e a perda da vegetação podem tornar determinadas regiões de Manaus ainda mais quentes.

O desafio não se resume à previsão do tempo. Envolve também a forma como a capital amazonense cresce, preserva suas áreas verdes e prepara sua população para um clima cada vez mais quente.

Érica Barbosa
Érica Barbosa
Assistente social, Prof.a mestra em saúde, empresária e pesquisadora
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