Da Ucrânia ao Oriente Médio, do Sudão ao Congo, de Mianmar ao Iêmen, o mundo atravessa uma sequência de guerras prolongadas que já não produzem apenas destruição local. Elas pressionam preços de alimentos, energia, rotas comerciais, orçamentos militares, ajuda humanitária e a estabilidade política de países inteiros.
A Organização das Nações Unidas aponta que os conflitos armados seguem entre os principais motores de deslocamento, fome, colapso de serviços públicos e violações de direitos humanos. Em 2025, os deslocamentos internos provocados por violência e conflitos chegaram a patamar recorde, com destaque para Sudão, Iêmen, República Democrática do Congo e outros países em crise prolongada. 
Ucrânia: guerra entra no quinto ano sem acordo definitivo
A guerra entre Rússia e Ucrânia começou em 24 de fevereiro de 2022, quando tropas russas invadiram o território ucraniano. Para a OTAN, trata-se de uma “guerra de agressão” da Rússia contra um país independente. A aliança afirma que apoia o direito da Ucrânia à autodefesa e que a melhor forma de buscar uma paz “justa e duradoura” é permitir que Kiev negocie em posição de força.
O conflito envolve diretamente Rússia e Ucrânia, mas mobiliza uma ampla rede internacional. Países da OTAN, União Europeia, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e outros aliados fornecem ajuda militar, financeira e humanitária a Kiev. A própria OTAN afirma que seus aliados entregaram “bilhões de euros” em equipamentos, suprimentos, treinamento e apoio crítico desde 2022.
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As causas principais passam pela disputa sobre soberania ucraniana, influência russa no antigo espaço soviético, expansão das alianças ocidentais, controle de territórios como Crimeia, Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, além da tentativa de Moscou de impedir a consolidação da Ucrânia como Estado plenamente integrado ao Ocidente.
As negociações seguem instáveis. Em maio de 2026, uma trégua temporária mediada pelos Estados Unidos terminou com nova onda de ataques russos com drones contra alvos ucranianos, segundo autoridades de Kiev. A Rússia lançou mais de 200 drones após o fim do cessar-fogo, e a Ucrânia afirmou ter interceptado a maioria deles.
O número de mortos é uma das informações mais sensíveis da guerra. A ONU registra as mortes civis confirmadas, mas admite que os números reais são provavelmente maiores. Até janeiro de 2026, o Escritório de Direitos Humanos da ONU havia registrado mais de 15 mil civis mortos e mais de 41 mil feridos desde a invasão em larga escala. No primeiro trimestre de 2026, novos ataques mataram pelo menos 566 civis e feriram 2.731, segundo relatório da ONU para a Ucrânia.
O impacto econômico é global. A guerra afetou energia, fertilizantes, trigo, milho, óleo de girassol, cadeias logísticas e gastos militares. O Instituto Kiel, que monitora apoio internacional à Ucrânia, afirma que sua base quantifica ajuda militar, financeira e humanitária prometida por governos desde janeiro de 2022, cobrindo 41 países e instituições europeias.
Gaza e Israel: guerra iniciada em 2023 segue com cessar-fogo frágil
A guerra entre Israel e Hamas começou em 7 de outubro de 2023, após o ataque do Hamas contra Israel, que matou cerca de 1,2 mil pessoas, em sua maioria civis, segundo dados citados internacionalmente por autoridades israelenses e organismos humanitários. A resposta militar israelense em Gaza provocou uma das maiores crises humanitárias recentes do Oriente Médio.
Os países e atores envolvidos incluem Israel, Hamas, grupos armados palestinos, Estados Unidos, Catar, Egito, Irã e países árabes e europeus que atuam direta ou indiretamente nas negociações, na pressão diplomática ou na ajuda humanitária.
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A causa imediata foi o ataque de 7 de outubro, mas o conflito tem raízes históricas mais profundas: ocupação israelense, bloqueio de Gaza, ausência de solução política para a criação de um Estado palestino, expansão de assentamentos na Cisjordânia, disputas territoriais, segurança israelense e rivalidades regionais.
Segundo o OCHA, órgão humanitário da ONU, os números de vítimas em Gaza são fornecidos pelo Ministério da Saúde local e pelas autoridades israelenses, enquanto a ONU informa que dados ainda não verificados são atribuídos às respectivas fontes. 
Até maio de 2026, autoridades de saúde de Gaza informavam mais de 72,5 mil palestinos mortos desde o início da guerra, a maioria civis, segundo a Reuters. O mesmo levantamento informa que, desde a entrada em vigor de um cessar-fogo em outubro de 2025, mais de 850 palestinos foram mortos, enquanto Israel registrou a morte de quatro soldados no período.
A previsão de fim é incerta. Há cessar-fogo, mas ele é descrito como frágil, com ataques quase diários e acusações mútuas de violação. A guerra também causou destruição econômica profunda: uma avaliação rápida conduzida por Banco Mundial, União Europeia e ONU estimou danos físicos em US$ 35,2 bilhões, perdas econômicas em US$ 22,7 bilhões e necessidades de recuperação e reconstrução em US$ 71,4 bilhões ao longo de uma década.
Sudão: a maior crise de deslocamento do mundo
A guerra no Sudão começou em 15 de abril de 2023, quando a disputa entre as Forças Armadas Sudanesas, comandadas por Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido, lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo, explodiu em confronto aberto. A crise tem raízes no golpe militar de 2021, na disputa pelo controle do Estado, na integração das forças paramilitares ao Exército e em conflitos históricos de poder, etnia e território, especialmente em Darfur.
A ONU descreve o Sudão como uma crise humanitária extrema. A Organização Mundial da Saúde estimou, em fevereiro de 2026, que 11,5 milhões de pessoas haviam sido forçadamente deslocadas, incluindo 7,2 milhões de novos deslocados internos e mais de 4,2 milhões de refugiados, solicitantes de asilo e retornados que cruzaram fronteiras.
As mortes são difíceis de contabilizar porque áreas inteiras permanecem inacessíveis. Há estimativas que variam de dezenas de milhares a centenas de milhares de mortos, dependendo da fonte e da metodologia. Em 2026, a ONU alertou para uma escalada específica: entre janeiro e abril, ataques com drones responderam por cerca de 80% das mortes civis relacionadas ao conflito monitoradas pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos, com pelo menos 880 civis mortos, principalmente em Kordofan.
A guerra atingiu diretamente Sudão, Chade, Sudão do Sul, Egito, Etiópia e República Centro-Africana, que recebem refugiados ou sofrem efeitos de instabilidade fronteiriça. O impacto social é devastador: fome, violência sexual, hospitais destruídos, escolas fechadas, cidades esvaziadas e ajuda humanitária bloqueada.
Não há previsão confiável de fim. O secretário-geral da ONU e organismos internacionais vêm pedindo interrupção do fluxo de armas, abertura de corredores humanitários e retomada das negociações, mas nenhum dos lados alcançou vitória decisiva. A guerra entrou no quarto ano com sinais de impasse militar e fragmentação territorial.
República Democrática do Congo: minerais, milícias e crise no leste
A República Democrática do Congo vive conflitos recorrentes há décadas, mas a escalada recente no leste do país se intensificou a partir de 2022 e ganhou força em 2025, com avanços do grupo rebelde M23, acusado por Kinshasa e por organismos internacionais de receber apoio de Ruanda. Ruanda nega apoiar a rebelião.
O conflito envolve o governo congolês, o M23, milícias locais, grupos armados como as Forças Democráticas Aliadas, forças regionais e países vizinhos. A disputa passa por controle territorial, rivalidades étnicas, segurança de fronteira e acesso a minerais estratégicos como cobalto, coltan, ouro e estanho, fundamentais para a indústria global de tecnologia e baterias.
Em maio de 2026, a Associated Press informou que ataques de um grupo ligado ao Estado Islâmico mataram pelo menos 40 pessoas em aldeias no leste do Congo, perto da fronteira com Uganda. 
A crise no leste congolês deslocou milhões de pessoas. Dados humanitários europeus e do ACNUR indicam 8,2 milhões de pessoas deslocadas, com projeção de chegar a 9 milhões até o fim de 2026, incluindo 5,8 milhões de deslocados internos e mais de 1,2 milhão de refugiados congoleses em países vizinhos.
O conflito também tem impacto econômico internacional porque a RDC é central na cadeia de minerais críticos. A instabilidade pressiona a segurança de fornecimento para setores como veículos elétricos, eletrônicos, defesa e transição energética.
Mianmar: guerra civil após golpe militar
A guerra civil em Mianmar se agravou após o golpe militar de 1º de fevereiro de 2021, quando os militares derrubaram o governo eleito de Aung San Suu Kyi. Desde então, a junta enfrenta forças de resistência pró-democracia, milícias étnicas armadas e grupos locais organizados em diversas regiões.
O Conselho de Relações Exteriores, em seu monitor de conflitos, aponta que as Forças de Defesa do Povo e seus aliados vêm ganhando território, enquanto a junta enfrenta dificuldades contra organizações armadas étnicas. A ONU já havia reportado mais de 3 milhões de civis deslocados e mais de 75 mil mortes totais relacionadas ao conflito.
As causas passam por décadas de domínio militar, repressão política, conflitos étnicos, disputa por autonomia regional, rejeição ao resultado eleitoral e resistência popular ao golpe. O país também sofre com colapso econômico, inflação, fuga de investimentos, destruição de infraestrutura e ataques aéreos contra áreas civis.
A previsão de fim é distante. A fragmentação do país, a resistência armada crescente e a falta de negociação política inclusiva impedem uma solução rápida.
Iêmen e Mar Vermelho: guerra prolongada e impacto no comércio global
A guerra do Iêmen começou em 2014, quando os houthis tomaram a capital, Sanaa, e se agravou em 2015, com a intervenção de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita em apoio ao governo internacionalmente reconhecido. O conflito envolve houthis, governo iemenita, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã como apoiador dos houthis segundo governos ocidentais e atores locais separatistas e tribais.
A ONU estimou que a guerra no Iêmen provocou 377 mil mortes até o fim de 2021, somando causas diretas e indiretas; cerca de 60% dessas mortes resultaram de fome, doenças e falta de acesso a serviços de saúde.
A guerra perdeu intensidade em alguns períodos por causa de tréguas e negociações, mas não acabou. O conflito ganhou nova dimensão internacional com ataques ligados aos houthis no Mar Vermelho, uma das rotas mais importantes do comércio global. Isso afeta fretes, seguros, cadeias de suprimento e custos de transporte entre Ásia, Europa, África e Oriente Médio.
O impacto social no Iêmen segue grave: milhões dependem de ajuda humanitária, há risco de fome, surtos de doenças e colapso de serviços básicos. O CFR aponta que dois terços da população, cerca de 21,6 milhões de iemenitas, permanecem em necessidade urgente de assistência.
O efeito dominó na economia mundial
O Fundo Monetário Internacional afirma que a economia global voltou a ser abalada pela guerra, especialmente com a ampliação do conflito no Oriente Médio. O FMI projeta crescimento global de 3,1% em 2026 e 3,2% em 2027, sob a hipótese de que o conflito permaneça limitado em duração e escopo.
Os principais impactos econômicos são:
- Área afetada Efeito das guerras
- Energia Alta volatilidade em petróleo, gás e combustíveis, especialmente com Rússia, Oriente Médio e Mar Vermelho
- Alimentos Pressão sobre trigo, milho, fertilizantes e transporte, com impacto maior em países pobres
- Comércio Rotas marítimas mais caras e inseguras, especialmente no Mar Vermelho
- Inflação Guerras elevam incerteza, seguros, fretes e preços de commodities
- Gastos militares Europa, EUA, Rússia, China e países do Oriente Médio ampliam orçamentos de defesa
- Ajuda humanitária Cresce a demanda enquanto doadores enfrentam fadiga financeira
- Migração Milhões deixam suas casas, pressionando países vizinhos e sistemas sociais
Segundo o FMI, os riscos negativos predominam: um conflito mais longo ou mais amplo, maior fragmentação geopolítica, instabilidade financeira e novas tensões comerciais podem enfraquecer o crescimento e desorganizar mercados.
Mortes e deslocamentos: números disponíveis
Conflito Início Mortes informadas/estimadas Observação
Ucrânia 2022 Mais de 15 mil civis mortos confirmados pela ONU até jan. 2026; número real é maior
Mortes militares são disputadas e não têm contagem independente consolidada
Gaza/Israel 2023 Mais de 72,5 mil palestinos mortos, segundo autoridades de saúde de Gaza; cerca de 1,2 mil mortos no ataque de 7 de outubro em Israel Dados de Gaza são atribuídos ao Ministério da Saúde local pelo sistema ONU
Sudão 2023 Dezenas de milhares a centenas de milhares, dependendo da estimativa; ONU confirmou ao menos 880 civis mortos por drones entre jan. e abr. de 2026 Áreas inacessíveis dificultam contagem
RDC Escalada recente desde 2022/2025 Milhares de mortos em ofensivas e ataques locais; pelo menos 40 mortos em ataque recente no leste Crise envolve múltiplos grupos armados
Mianmar 2021 Mais de 75 mil mortes totais reportadas em análises com base em dados da ONU Guerra civil fragmentada
Iêmen 2014/2015 377 mil mortes diretas e indiretas estimadas pela ONU até 2021 Grande parte por fome, doença e colapso de serviços
Quando essas guerras podem acabar?
Não há previsão segura para o fim dos principais conflitos. A tendência comum é de guerras prolongadas, com negociações parciais, cessar-fogos frágeis e disputas territoriais ou políticas sem solução definitiva.
Na Ucrânia, a disputa territorial e as condições impostas por Rússia e Ucrânia dificultam acordo. Em Gaza, a trégua continua vulnerável e depende de garantias externas, libertação de reféns, segurança israelense, governança palestina e reconstrução. No Sudão, a guerra permanece marcada por impasse militar, fragmentação e interferência de redes externas de armas. Em Mianmar, a junta perdeu território, mas não aceitou transição democrática. No Congo, a solução depende de segurança regional e controle de grupos armados. No Iêmen, qualquer acordo exige acomodar houthis, governo reconhecido, separatistas e potências regionais.
Retrato final
O mundo não vive uma única guerra global, mas uma soma de guerras regionais com efeitos globais. A consequência é um planeta mais caro, mais armado, mais instável e mais desigual. A destruição não está apenas nos campos de batalha: aparece no preço do pão, no combustível, no orçamento público, nas migrações forçadas, na fome, na infância interrompida e na vida de milhões de civis que já não sabem quando poderão voltar para casa.


