HomeNotíciasMundoCom inflação de 400%, Venezuela avalia proposta para substituir bolívar pelo dólar

Com inflação de 400%, Venezuela avalia proposta para substituir bolívar pelo dólar

Economista que ajudou Equador na dolarização propõe mesma estratégia para Venezuela

O economista norte-americano Steve Hanke, professor de Economia Aplicada da Universidade Johns Hopkins e conhecido como “Doutor Dinheiro”, defende que a Venezuela abandone definitivamente o bolívar e adote o dólar como moeda oficial para enfrentar a inflação que chega a 400%.

Hanke foi nomeado assessor especial de uma importante liderança da Assembleia Nacional venezuelana e voltou a atuar na formulação de alternativas para a crise econômica do país. Em entrevista à revista Fortune, o economista afirmou que a estabilização dos preços deveria ser o primeiro passo para uma recuperação mais ampla da economia.

A proposta defendida por ele prevê uma dolarização completa. Na prática, a Venezuela deixaria de utilizar o bolívar e abriria mão de uma política monetária própria, com a extinção do atual papel desempenhado pelo Banco Central.

A avaliação de Hanke é que retirar do governo a possibilidade de financiar despesas por meio da emissão de moeda reduziria uma das fontes de pressão inflacionária.

“Domar a inflação é a chave para restaurar a estabilidade na Venezuela, e todo o resto decorre disso”, afirmou. Para o economista, sem estabilidade dos preços, outras medidas voltadas à recuperação econômica teriam alcance limitado.

Dólar já faz parte da economia venezuelana

Embora represente uma mudança estrutural, a adoção do dólar oficializaria uma realidade que já está presente no cotidiano de parte significativa da população venezuelana.

Com a desvalorização do bolívar, que, segundo os dados apresentados por Hanke, perdeu 78% do valor em relação ao dólar no último ano, a moeda norte-americana passou a ser utilizada amplamente em compras e outras transações.

O economista classifica o fenômeno como uma espécie de “dolarização espontânea” e considera que a disseminação do dólar entre consumidores e empresas pode facilitar uma eventual transição oficial.

A mudança, entretanto, também retiraria da Venezuela instrumentos próprios de política monetária. Sem um banco central atuando como emprestador de última instância e controlador da moeda nacional, decisões do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, passariam a ter impacto ainda mais direto sobre a economia venezuelana.

Economista participou de experiências em outros países

Hanke acumula experiências em processos de estabilização monetária em diferentes países. Em 1999, participou da adoção do marco alemão por Montenegro em substituição ao dinar iugoslavo.

No ano seguinte, acompanhou a transição do Equador do sucre para o dólar. O país tornou-se uma das economias latino-americanas a oficializar a moeda norte-americana, seguindo o modelo adotado anteriormente pelo Panamá.

Em 2009, Hanke também atuou como assessor informal no Zimbábue durante o período em que o país passou a utilizar moedas estrangeiras, entre elas o dólar, em meio a uma crise de hiperinflação.

Esta não é a primeira tentativa do economista de implementar uma mudança monetária na Venezuela. Na década de 1990, ele defendeu a criação de um currency board, sistema que limitaria a emissão de moeda e estabeleceria uma vinculação rígida a uma moeda estrangeira. A proposta, porém, não conseguiu apoio suficiente na Assembleia Nacional.

Agora, Hanke estima entre 50% e 80% as chances de a dolarização avançar. Caso seja concretizada, ele considera que a medida representaria uma das maiores substituições de uma moeda nacional por outra desde a introdução do euro, em 1999.

Petróleo e dívida entram na equação

A proposta de Hanke também está relacionada à recuperação da indústria petrolífera, uma das principais fontes de receitas externas da Venezuela. O economista avalia que a estabilidade monetária proporcionada pelo dólar poderia estimular uma nova entrada de investimentos estrangeiros no setor.

O aumento da produção de petróleo também seria, na avaliação dele, fundamental para enfrentar outro desafio: a dívida venezuelana, estimada em US$ 250 bilhões, equivalente a aproximadamente 150% do Produto Interno Bruto (PIB).

Hanke sustenta que uma expansão da atividade petrolífera aumentaria a entrada de dólares no país e ajudaria a criar condições para o pagamento do principal e dos juros da dívida.

Apesar da defesa da dolarização, experiências recentes mostram que a substituição de uma moeda nacional envolve obstáculos econômicos e políticos. A Argentina, por exemplo, chegou a discutir a adoção do dólar durante a campanha de Javier Milei, mas a proposta não foi implementada após sua chegada ao governo.

Na Venezuela, portanto, a discussão envolve não apenas o combate à inflação, mas uma mudança profunda na estrutura econômica: a adoção integral do dólar significaria abrir mão do bolívar e de parte da autonomia monetária do país em troca da tentativa de alcançar maior estabilidade dos preços.

*Com informações do InfoMoney

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