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Conta mais cara e interrupções: consumidores relatam insatisfação com serviço da Âmbar no Amazonas

Moradores relatam quedas frequentes, prejuízos e aumento nas faturas; Aneel aponta cerca de 41 horas sem energia por ano no estado, enquanto concessionária não respondeu aos questionamentos da reportagem

Interrupções no fornecimento, oscilações, prejuízos dentro de casa e contas consideradas altas pelos consumidores continuam marcando a rotina de moradores do Amazonas. Meses após a Âmbar Energia assumir o controle da antiga Amazonas Energia, relatos colhidos pela reportagem mostram insatisfação com a qualidade do serviço.

Os depoimentos encontram respaldo em um cenário que já chama a atenção dos órgãos de fiscalização. Durante audiência pública na Câmara dos Deputados, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou que os consumidores amazonenses enfrentam, em média, cerca de 41 horas sem energia elétrica por ano. A agência também anunciou acompanhamento mensal de medidas para melhorar o desempenho operacional da concessionária.

Além das interrupções não programadas, moradores de Manaus vêm convivendo com desligamentos previamente anunciados para manutenção da rede. Em diferentes ocasiões, bairros da capital tiveram interrupções programadas que poderiam chegar a dez horas.

Nesta terça-feira (1º), o tema voltou a gerar cobrança política após a divulgação de novos desligamentos. O deputado federal Fausto Jr. afirmou que encaminharia ao Ministério Público um pedido para que a concessionária prestasse explicações sobre interrupções de até dez horas em Manaus.

Consumidores relatam falta de energia e prejuízos

Para quem enfrenta as interrupções dentro de casa, os números se transformam em desconforto e preocupação com alimentos, eletrodomésticos e despesas.

Maria do Socorro relata que a energia falta ocasionalmente em sua região e afirma que o problema se torna ainda mais difícil durante os períodos de calor intenso em Manaus.

“Falta de vez em quando. Com esse calor forte que está fazendo em Manaus, ficar sem ventilador é complicado. E a comida acaba estragando mais rápido. O calor estressa a gente”, relatou.

Além das interrupções, ela reclama do peso da fatura no orçamento familiar.

“Quando tem energia ainda temos que economizar, porque senão o talão vem um absurdo. Daí, se a gente não pagar, eles cortam. É pior”, acrescentou.

A relação entre as altas temperaturas, o consumo e as faturas também já foi abordada pela própria concessionária. Em agosto, durante comparecimento à Câmara Municipal de Manaus (CMM), o presidente da empresa, João Pilla, atribuiu ao aumento do consumo provocado pelo calor parte da elevação percebida nas contas de energia.

Raimundo Sousa também questiona a relação entre o preço cobrado e a qualidade do fornecimento. Segundo ele, a conta mais recente chegou a R$ 380, apesar das interrupções registradas durante o mês.

“Considero [cara]. Minha conta veio R$ 380 e eu tive várias interrupções no mês. Acho que o valor não condiz com o serviço entregue. A gente paga caro e fica sem luz com frequência. Pelo menos aqui na minha rua é essa chatice”, afirmou.

Oscilações também geram reclamações

As queixas não se restringem à falta completa de energia. Francisco Silva afirma que uma oscilação provocou prejuízo dentro de casa.

“Da última vez, a luz ficou oscilando e queimou meu micro-ondas. Também perdi a carne do freezer. Eu acho isso um desrespeito com a gente. E no final chega o talão de luz caro”, disse.

A Aneel diferencia a continuidade do fornecimento da qualidade da tensão. Os indicadores DEC e FEC medem a duração e a frequência das interrupções, enquanto problemas relacionados à tensão abrangem fenômenos como oscilações e desvios dos parâmetros considerados adequados.

Problema antecede gestão da Âmbar

O cenário enfrentado atualmente tem origem anterior à chegada da nova controladora.

Dados referentes a 2025, portanto ainda sob a antiga administração da Amazonas Energia, registraram 40,44 horas de duração equivalente de interrupção por unidade consumidora (DEC) e 25,09 interrupções equivalentes por unidade consumidora (FEC) ao longo do ano.

Naquele período, os dois indicadores pioraram em relação a 2024, quando haviam sido registradas 37,58 horas e 21,77 interrupções equivalentes.

No Ranking de Continuidade de 2025 da Aneel, a Amazonas Energia apareceu na 18ª posição no Indicador de Desempenho Global de Continuidade (DGC) entre as distribuidoras de grande porte, grupo formado por empresas com mais de 400 mil unidades consumidoras.

A transferência do controle para a Âmbar Energia foi concluída em 10 de abril de 2026, após aprovação dos órgãos competentes.

Na ocasião, a nova controladora afirmou que pretendia atuar em três frentes: modernização da rede, aumento da eficiência operacional e reequilíbrio econômico-financeiro da distribuidora.

Desde então, a empresa também vem realizando manutenções programadas. Em julho, por exemplo, a Âmbar anunciou a instalação de um novo transformador para reforçar a infraestrutura elétrica de municípios do interior.

Para Luciano Moura, porém, as mudanças ainda não se traduziram em uma melhora perceptível no fornecimento.

“Eu queria dizer que melhorou, mas seria mentira. Nos primeiros 15 dias parecia que ia ter mudança, o atendimento telefônico ficou mais rápido. Mas, na prática, as quedas continuam iguais”, afirmou.

O consumidor reconhece os problemas deixados pela antiga concessionária, mas cobra resultados da nova administração.

“Sei que herdaram um problema enorme da Amazonas Energia, mas não vejo obra, não vejo equipe na rua, não vejo solução”, completou.

Tarifa residencial subiu 3,77%

Além da qualidade do fornecimento, o preço da energia aparece entre as principais reclamações dos entrevistados.

Em maio, a Aneel aprovou o reajuste tarifário anual da concessionária no Amazonas. Para os consumidores residenciais da classe B1, o aumento foi de 3,77%.

Na baixa tensão, categoria que engloba residências, pequenos comércios e propriedades rurais, o reajuste médio ficou em 3,79%. Já considerando todas as classes de consumidores, o efeito médio chegou a 6,58%. As novas tarifas passaram a valer em 26 de maio.

Gráfico mostra os percentuais do reajuste tarifário anual aprovado pela Aneel para a concessionária no Amazonas. A tarifa residencial da classe B1 subiu 3,77%, enquanto o reajuste médio da baixa tensão foi de 3,79% e o efeito médio geral chegou a 6,58%. As novas tarifas passaram a valer em 26 de maio. Foto/Arte: IA | Fonte: Aneel

As reclamações sobre o preço das faturas também provocaram reação de órgãos de defesa dos consumidores. Em agosto, a Defensoria Pública do Amazonas abriu um canal para receber contas de consumidores e investigar possíveis cobranças irregulares.

A instituição solicitou faturas referentes a junho, julho e agosto de 2025 e dos mesmos meses de 2026 para fazer comparações e identificar possíveis padrões.

Em resposta anterior à Defensoria, conforme publicado pelo Manaós, a Âmbar informou que não havia identificado um fator técnico ou regulatório extraordinário capaz de explicar, isoladamente, um aumento inesperado e generalizado das contas entre consumidores com o mesmo nível de consumo.

A concessionária apontou fatores como maior consumo em períodos de calor, sazonalidade climática e efeitos tarifários autorizados pela Aneel.

O aumento efetivamente percebido por cada consumidor, entretanto, não depende apenas do reajuste tarifário. Consumo mensal, bandeiras tarifárias, tributos e outros componentes da fatura também podem alterar o valor final.

Por isso, a percepção dos entrevistados de que a conta aumentou não significa, isoladamente, que toda a diferença decorra do reajuste aprovado em maio.

Aneel cobra medidas da concessionária

Durante audiência das comissões de Defesa do Consumidor e de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, representantes da Aneel informaram que a distribuidora teria de apresentar medidas para melhorar o desempenho operacional.

Segundo o superintendente de Fiscalização Técnica dos Serviços de Energia Elétrica da Aneel, Giácomo Almeida, a agência passaria a cobrar mensalmente a compra de equipamentos e a contratação de equipes de manutenção.

A audiência também foi marcada pela ausência de representantes da Âmbar. Na ocasião, a concessionária encaminhou um ofício em resposta aos questionamentos apresentados.

Âmbar não respondeu à reportagem

Para esta reportagem, a Âmbar Energia foi procurada por e-mail na semana passada e recebeu questionamentos sobre o número de interrupções registradas desde que assumiu a distribuição no Amazonas, duração média das interrupções, investimentos realizados, reclamações relacionadas ao valor das contas e evolução dos indicadores de qualidade.

Foi estabelecido prazo para o envio das respostas. Até o fechamento desta matéria, entretanto, a concessionária não havia se manifestado.

O espaço permanece aberto para que a Âmbar apresente seu posicionamento e os dados atualizados sobre o serviço prestado no Amazonas.

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