HomeNotíciasMundoDívidas em atraso atingem 5,8 milhões de argentinos durante ajuste de Milei

Dívidas em atraso atingem 5,8 milhões de argentinos durante ajuste de Milei

Número de consumidores com pagamentos vencidos cresceu nos últimos dois anos, enquanto famílias enfrentam crédito caro e pressão sobre a renda mesmo com a desaceleração da inflação

A dificuldade para manter as contas em dia atinge milhões de argentinos em meio às mudanças econômicas promovidas pelo governo de Javier Milei. Cerca de 5,8 milhões de pessoas com acesso ao crédito formal acumulam pagamentos atrasados há mais de 90 dias.

O número representa uma parcela significativa dos aproximadamente 20,8 milhões de argentinos que possuem algum tipo de financiamento. Na prática, quase três em cada dez consumidores com crédito enfrentam problemas para cumprir os compromissos financeiros.

A alta das dívidas em atraso na Argentina ocorre mesmo após a forte desaceleração da inflação, um dos principais indicadores apresentados pelo governo Milei como resultado do programa de ajuste econômico.

Inadimplência cresce

Levantamentos recentes indicam que o número de consumidores inadimplentes mais que dobrou em dois anos. O contingente passou de aproximadamente 2,4 milhões para 5,8 milhões de pessoas.

Além disso, o estoque de crédito destinado às famílias alcança cerca de 82,8 trilhões de pesos argentinos. Desse montante, aproximadamente 13,5 trilhões de pesos apresentam algum nível de atraso.

O avanço afeta principalmente modalidades usadas no cotidiano, como cartões de crédito e empréstimos pessoais.

Entre os consumidores mais jovens, o quadro também chama atenção. Levantamentos apontam que quase 40% dos jovens que utilizam crédito registram algum tipo de atraso.

Fintechs têm índices maiores

As dificuldades não aparecem apenas nos bancos tradicionais.

Dados do Banco Central da República Argentina mostram taxas ainda mais elevadas entre provedores não financeiros de crédito, grupo que inclui parte das fintechs e empresas que oferecem financiamento fora do sistema bancário convencional.

Em fevereiro, a carteira irregular dessas instituições chegou a 26,9%. Nos empréstimos pessoais, o percentual alcançou 34,1%.

Os números reforçam a pressão financeira sobre consumidores que recorreram a alternativas de crédito nos últimos anos.

Inflação perde força

Enquanto a inadimplência avança, a inflação argentina mantém ritmo bem menor do que o observado no início da gestão Milei.

Em julho, os preços ao consumidor subiram 2,1%. No acumulado de 12 meses, a inflação ficou em 33,8%, enquanto o avanço desde janeiro chegou a 19,3%.

A desaceleração representa uma mudança importante na economia argentina. Entretanto, ela também alterou a dinâmica das dívidas.

Durante períodos de inflação muito elevada, parcelas fixas perdiam valor real rapidamente. Com a redução do ritmo de aumento dos preços, esse efeito diminuiu.

Ao mesmo tempo, juros elevados aumentaram o peso dos financiamentos. Como resultado, muitas famílias passaram a comprometer uma parcela maior da renda com prestações.

Bancos mostram sinais de estabilização

Os dados mais recentes do sistema bancário, porém, apresentam um sinal de estabilidade.

Em junho, a proporção de créditos irregulares do setor privado recuou de 7,7% para 7,6%, segundo o Banco Central argentino.

Entre as famílias, o indicador permaneceu em 12,8%.

Já nos empréstimos pessoais, a situação continuou piorando. A inadimplência nessa modalidade passou de 15,9% para 16,3% entre maio e junho.

Assim, embora o índice geral tenha interrompido a trajetória de alta, os dados mostram que segmentos importantes do crédito ao consumidor continuam sob pressão.

Governo descarta ajuda direta

Javier Milei não sinaliza, até o momento, a criação de um programa público para socorrer consumidores endividados.

O presidente argentino considera que a questão deve ser resolvida entre instituições financeiras e clientes.

Por outro lado, o ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que bancos trabalham em alternativas para facilitar a renegociação das dívidas. Entre as medidas discutidas estão a ampliação dos prazos e a redução dos juros.

Endividamento desafia recuperação

O aumento das dívidas em atraso na Argentina também pode limitar uma das apostas do governo para acelerar a atividade econômica: a expansão do crédito privado.

Consumidores com histórico de inadimplência encontram mais obstáculos para contratar novos financiamentos. Além disso, o comprometimento da renda com parcelas reduz o espaço para outras despesas.

O cenário expõe, portanto, um desafio para a economia argentina. Embora a inflação tenha recuado de forma expressiva, milhões de famílias ainda enfrentam dificuldades para transformar a melhora dos indicadores macroeconômicos em maior capacidade de consumo e pagamento.

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