Uma técnica de ultrassonografia dinâmica desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) pode ampliar o acesso ao diagnóstico de lesões na cartilagem do joelho. O método permite avaliar a articulação durante movimentos de flexão e extensão e apresentou resultados próximos aos da ressonância magnética, com custo estimado entre 5% e 10% do valor desse exame.
A pesquisa foi conduzida pelo radiologista Henrique Augusto Lino, no Hospital das Clínicas (HC), e envolveu 82 pacientes com suspeita de lesão na cartilagem e indicação para realizar ressonância magnética. Os resultados dos dois exames foram comparados para avaliar a capacidade do ultrassom de identificar e classificar as alterações.
Segundo os pesquisadores, a ultrassonografia dinâmica apresentou sensibilidade e especificidade próximas de 90%, indicando potencial para funcionar como exame de triagem. A proposta é ajudar a identificar pacientes que precisam de uma investigação mais detalhada e direcionar o tratamento antes que as lesões evoluam para quadros mais graves.
Exame pode facilitar o acesso ao diagnóstico
A ressonância magnética permite visualizar diferentes estruturas da articulação, mas o custo e a disponibilidade podem dificultar o acesso ao exame, especialmente na rede pública de saúde. Em algumas situações, pacientes precisam se deslocar para outros municípios ou enfrentar filas de espera.
O ultrassom, por sua vez, é um equipamento mais acessível e está disponível em unidades de saúde de diferentes regiões. A técnica estudada pode permitir uma avaliação inicial mais rápida e contribuir para que a ressonância seja priorizada em casos complexos ou quando houver necessidade de planejamento cirúrgico.
A principal inovação está na realização de manobras durante o exame. O paciente permanece deitado enquanto o joelho é movimentado gradualmente em diferentes ângulos, permitindo observar regiões da cartilagem que podem ficar encobertas pela patela em posições convencionais.
De acordo com Henrique Lino, a abordagem busca criar uma alternativa entre a radiografia e a ressonância magnética, ampliando as possibilidades de triagem e acompanhamento dos pacientes.
Lesões podem evoluir para artrose
A cartilagem funciona como uma camada de proteção entre os ossos, reduzindo o atrito durante os movimentos. Quando essa estrutura sofre desgaste ou lesões, o paciente pode apresentar dor, dificuldade de movimentação e outras complicações.
Entre as condições associadas estão a condromalácia, caracterizada pelo amolecimento da cartilagem, e a instabilidade patelar, quando a patela perde seu alinhamento durante o movimento. Em determinados casos, fragmentos de cartilagem podem se desprender e ficar presos na articulação, provocando dor e bloqueio dos movimentos.
Sem diagnóstico e tratamento adequados, algumas lesões podem favorecer a evolução para artrose, condição que pode comprometer a mobilidade e a qualidade de vida. Conforme a gravidade, o tratamento pode incluir medicamentos, infiltrações ou procedimentos cirúrgicos, como a artroscopia. Nos quadros mais avançados, pode ser necessária a substituição da articulação por uma prótese.
A identificação da lesão e de sua gravidade ajuda a orientar a conduta médica mais adequada para cada paciente.
Pesquisa ainda precisa ser ampliada
Apesar dos resultados iniciais, os pesquisadores ressaltam que são necessários novos estudos para avaliar o desempenho da técnica em uma escala maior e em diferentes contextos de atendimento, especialmente na atenção primária.
A pesquisa foi realizada com pacientes do Hospital das Clínicas, que apresentavam suspeitas de lesões e indicação para ressonância magnética. Por isso, ainda é necessário verificar se os resultados serão mantidos em grupos mais amplos e em pacientes atendidos em ambulatórios.
A expectativa é que, caso os resultados sejam confirmados em novas pesquisas, o ultrassom dinâmico possa contribuir para ampliar o acesso ao diagnóstico, acompanhar a evolução das lesões e otimizar os recursos da rede de saúde, sem substituir a ressonância magnética nos casos em que ela continuar sendo necessária.
*Com informações do Jornal da USP
Leia mais: SUS começa a oferecer nove novos medicamentos contra o câncer


